segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Aventuras na Serra do Mar

Durante mais de dez anos, morei  em Ubatuba, no Litoral Norte de SP  e como toda minha família havia ficado no interior, quase todo final de semana viajava para visitá-la.
Preferia utilizar a Rodovia Oswaldo Cruz.   Percorria  com muita tranquilidade e prazer aquele caminho maravilhoso, apesar do enorme perigo representado pelo seu péssimo estado de conservação naquela época,  pelas curvas - verdadeiros cotovelos- e pelos abismos imensos.
Conheço cada palmo daquela rodovia, posso assim dizer, por causa das incontáveis viagens e situações complicadas que ali vivenciei.

        

A estrada está  implantada no seio da Mata Atlântica, Área de Preservação Ambiental  - APA - região da Serra do Mar, onde predominam imensos manacás -da-serra que ao florescerem, enchem nossos olhos de tonalidades e matizes, em  verde, branco,  rosa e lilás. Não é raro vermos passar à frente de nosso veículo um animalzinho apressado. Ouve-se o canto dos pássaros apesar do ruído do motor.  O perfume e frescor do ar, dão leveza à alma da gente!





A neblina e a chuva são  constantes,  provocadas  pela grande evaporação da Mata e pela proximidade do mar, por isso Ubatuba é conhecida como Ubachuva
Muitos momentos difíceis passei ali por causa desses fenomenos, mas mesmo assim eu amo aquela serra!

Como queria aproveitar a companhia de meus pais e meus filhos, acabava pegando a estrada à tarde e  quando chegava à serra estava anoitecendo.
Numa dessas viagens, atrasei-me e  encontrei uma neblina muito densa, mais que o habitual. Diminui a velocidade e fui tentando me orientar.   Estava visivelmente desnorteada quando um carro branco me ultrapassou,  entrou à minha frente, ligou o pisca-alerta e foi me guiando enquanto durou a neblina.  Já no final  da serra, deu-me passagem.
Surpresa, fiz um gesto de agradecimento e segui, também agradecendo a Deus pela providencial ajuda.
Quem seria aquele motorista?
Um viajante solidário que percebera a minha insegurança ou um Anjo que veio em meu socorro?
Nunca pude saber! O fato é que não o vi mais na estrada. Desapareceu!



Numa outra vez, também  na volta para Ubatuba,  aconteceu algo bem semelhante.
Chovia muito e a neblina intensa como sempre, foi me deixando apreensiva, amedrontada. Já não enxergava mais nada! Comecei a rezar!
Sem possibilidade de  estacionar,  porque não havia acostamento, e  também porque a estrada deserta me apavorava, continuei a viagem  às cegas.  O belo caminho transformara-se  num cenário de filme de horror!
A criança  adormecida dentro de mim despertou!
Via  em lugar dos maravilhosos manacas  vultos fantasmagóricos, com seus braços descarnados estendidos em minha direção, temia que algum animal selvagem invadisse a pista, ou almas penadas surgissem a qualquer momento para me assombrar. Foram tantos os pensamentos terríveis!  Chamava  angustiada meus Anjos e todos os meus santos!...
Estava completamente perdida no meio daquele nevoeiro... de repente, senti que o carro derrapava na pista molhada e que a traseira se chocava  com alguma coisa. Horrorizada, pensei que iria cair  num daqueles abismos, mas por sorte, havia batido num barranco.
Neste mesmo instante passava um automóvel, lembrei-me do que acontecera na outra vez e  instintivamente decidi segui-lo.
Sentia que o  carro estava pesado.  Atribui a isso a batida no barranco e continuei acompanhando com dificuldade o outro motorista até que ele desapareceu na escuridão.
Desta vez não era um anjo!
Decepcionada,  não tinha alternativa, precisava seguir, só não sabia onde iria parar.


Não sei por quanto tempo durou aquela angústia!
Nada mais me parecia real, tentava me manter atenta a qualquer eventualidade.  Esperava que de um momento para outro pudesse acontecer algo pior.
Minha cabeça doía, meu corpo tremia de frio e de aflição!


Foi então que um pensamento terrível me ocorreu:  talvez na batida eu tivesse morrido e minha alma ainda estivesse vagando, perdida naquele lugar deserto. Quase entrei em pânico!
Aquela agonia prolongou-se ainda por muito tempo! Os fantasmas teimavam em povoar minha imaginação! Estava à beira de uma crise de nervos!
Prometia a mim mesma que nunca mais me envolveria em tal  situação se conseguisse escapar.
E o tempo continuava passando lentamente! Parecia-me uma eternidade!
Estava no auge do meu desespero quando vi uma placa à beira da estrada,  envolta na neblina:

  Percebi neste momento que ao bater, o carro dera meia volta e ao invés de descer a serra, eu havia subido!! Estava chegando à São Luís do Paraitinga!!!!

O pior é que teria que percorrer o caminho todo de novo, isto é, enfrentar a neblina novamente por vários quilometros!
Bem, pelo menos eu estava viva, não era uma alma penada. Feliz, enchi-me de coragem e retomei o meu caminho!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A Escola de Antigamente

Grupo Escolar Antônio João, em Piquete-Sp.Turma do 1° ano em 1957
Postada por Ilce Nunes e fotografada por D Mariinha
                           
Foi no Grupo Escolar Gabriel Prestes em Lorena, no estado de São Paulo que pela primeira vez entrei numa sala de aula.
Já havia sido alfabetizada por meu pai porque morávamos no Estado do Rio de Janeiro onde, além de morar distante, era difícil conseguir vagas na escola.  Preocupado em ver que eu crescia sem saber ler e escrever, ele me ensinou o que sabia.
Tinha nove anos quando entrei na primeira série do curso primário. Graças ao meu querido pai, ao carinho e à competência de minhas professoras, à minha vontade enorme de aprender,  não tive dificuldade alguma em meus estudos.

Tudo era novo para mim, a disciplina, a organização da escola, , o material de ensino, tantas crianças juntas...
 Estranhei um pouco as carteiras duplas  que, se nos mexêssemos muito, balançávamos a mesa do colega de trás e o da frente balançava a nossa. O tinteiro com tinta Nanquim ou Parker era embutido na mesa.
Havia  lugar também para a goma arábica, para lápis e borracha.  Em baixo dela havia espaço para colocar os cadernos e livros.
Toda sala possuía um apontador de lápis coletivo e tínhamos o alongador que permitia usar o lápis até estar um toquinho ( que tal essa dica ecológica nos dias atuais?)

pena de escrever




Parker 51 -  caneta tinteiro dos anos 60
               No início, no primeiro ano, usávamos lápis Johann  Faber para escrever, ainda era usada também a caneta de madeira com ponta metálica, a pena de escrever, que não podia cair, sob hipótese alguma, porque a frágil ponta metálica se partia ( lembro-me de lindos desenhos que eram feitos a bico de pena, com tinta Nanquim).



homem vitruviano imaginado por Leonardo Da Vinci -exemplo de desenho feito à bico de pena


Depois foi criada a caneta tinteiro.
Quanta tinta derramada!
Foi uma grande alegria quando ganhei a minha primeira Parquer 51, era um luxo!
Sendo canhota, escrevia passando a mão por cima da escrita e muitas vezes borrava a folha do caderno porque a tinta demorava a secar.  Eu precisava fazer ginástica para escrever.




 Para  enxugar o excesso de tinta usávamos  mata-borrão.
                                                                   


Os cadernos eram  de brochuras,  grampeados no centro.
Se arrancássemos uma folha, a  outra despencava e, por mais cuidado que  tivéssemos, ficavam cheios de "orelhas".
O caderno de caligrafia deixou minha letra redondinha que dava até gosto!
 Foi a d. Ester, professora do  terceiro ano, que me aconselhou,  a copiar nele, durante as férias, a última e enorme lição do livro de leitura.

Tínhamos também um caderno de Linguagem, um de desenho, um de ocupação e um só para provas. Todos eram encapados, etiquetados e guardados em armários nas salas de aula. Somente levávamos para casa o caderno de tarefas diárias.
O livrinho de tabuadas (continhas de vezes) era decorado "na ponta da língua", a régua era de madeira,
as folhas de papel ao maço pautadas, também guardadas no armário, eram usadas nos exames do meio do ano e finais. Tínhamos uma espécie de mala ou pasta para transportar o material de casa,  que deveríamos cuidar muito bem para que durasse os quatro anos.


A alfabetização era iniciada com  a "Cartilha Sodré: " de Benedita S. Sodré 

"A pata nada.  
A macaca é má. 
Pata pa      nada na    
macaca ma
Inesquecível!                                                                                 
                                                                                                                                                                                                                           

O primeiro livro foi o "Caminho Suave" de Branca Alves de Lima.
Hoje muitos criticam os métodos de alfabetização utilizados na época, mas a verdade é que os alunos ao final do curso liam e escreviam corretamente. Um exemplo disso foi meu pai, que me alfabetizou, tendo cursado apenas até o segundo ano primário. Quantos alunos atualmente chegam à sétima e oitava séries do ensino Fundamental sem saber ler!
    
                                
                                                       
Eu era muito alta, além disso era dois anos mais velha que as outras crianças. Ficava profundamente envergonhada quando fazíamos fila para entrar ou sair da classe,  era quase o dobro da altura de meus colegas, e  me curvava para parecer menor, queria que um buraco se abrisse para poder me esconder!
No recreio via as crianças brincando de roda, de pega-pega, chicotinho queimado,... e me achava sem jeito para brincar com elas, mas aos poucos fui me adaptando. Sentia que apesar de toda a minha timidez  aos poucos elas iam se aproximando de mim.
Havia respeito, amizade, entre os pequenos da época.
A facilidade que eu tinha em aprender foi conquistando minhas professoras,  até as ajudava a corrigir cadernos.
A escola se tornou o meu segundo lar.
A nossa infância na escola era imensamente feliz!


Tenho saudades:
das minhas professoras, D. Ester de Almeida, D. Mirthes, D. Heloísa E. de Castro Andrade,
gostaria muito de ter sido aluna de D. Elsa Del Mônaco e  de D. Doli de Castro Galvão, porque elas organizavam o orfeon da escola, que era a minha paixão.
Todas eram profissionais competentes, dedicadas, exigentes quanto à aprendizagem, rígidas quanto à disciplina, tinham controle  absoluto sobre seus mais de quarenta alunos em sala de aula.
Saudades também dos diretores que amávamos: D. Ângela e Prof . Frederico Húmeo,
da D. Aparecida Pereira, nossa inspetora,
do seu  Porto que tocava o sino da entrada e saída dos alunos...\
Passaram-se rapidamente aqueles quatro anos.


Tínhamos em seguida,  sendo aprovados, que passar pelo exame de Admissão ao Ginásio,eram provas escritas e orais, dificílimas, uma espécie de "vestibulinho". Alguns alunos faziam um período preparatório de um ano, mas este não era obrigatório.


                                              
           

Vencida mais esta etapa, seguíamos para a primeira série ginasial, onde nos esperavam treze matérias, aulas também aos sábados, com provas semanais          ( sabatinas)e mensais, exames parciais ( meio do ano) e finais, orais e escritos. As matérias eram todas com notas atribuídas de 0 a 100 e eram: Matemática, Português, Francês, Inglês, Latim, História do Brasil e Geral, Geografia, Ciências Físicas e Biológicas, Canto Orfeônico, Economia Doméstica ( trabalhos manuais, culinária, primeiros socorros, etc), Desenho Geométrico ( cada aluno tinha a sua prancheta), Educação Física, Religião, Educação Moral e Cívica. Dureza!
                         

Alunos de todas as classes sociais frequentavam a escola pública em harmonia, como numa perfeita democracia. Um diploma adquirido nessas escolas valia tanto quanto o das escolas particulares.
A disciplina no ginásio era rígida.
Na entrada precisávamos apresentar a caderneta escolar que era recolhida e carimbada diariamente,  somente retirada no final das aulas (matar aulas, nem pensar). Se bem que um ou outro aluno dava seu jeitinho de escapar, mas não conseguia safar-se da ocorrência registrada na caderneta.
Vários inspetores de alunos nos mantinham sob vigilância constante, mas eram gentis conosco:  dona Natívidade, a Sílvia, a dona Diva, o "seu" Fausto, "seu" Portugal...O  Diretor, Professor Nelson Pesciotta, dirigia com pulso firme o nosso amado Arnolfo Azevedo!
O uniforme  completo era obrigatório: saia ( calça social ) azul-marinho pregueada, blusa ( camisa ) branca de mangas curtas  com o emblema da escola no bolso:  "AA" (Escola Estadual Arnolfo Azevedo), sapatos pretos ou tênis branco (nos dias de Educação Física), meias brancas .


  Participávamos de jogos, campeonatos internos e inter-municipais,  olimpíadas, desfiles em datas cívicas, (eu estava sempre na guarda de honra das bandeiras e uma vez  fui a Estátua da Liberdade), a nossa fanfarra era  campeã!
Todos os anos apresentávamos um festival com números musicais, teatro, dança,...
Tenho saudade maior ainda do nosso coral, onde eu fazia a primeira voz e solo.
Nosso Grêmio Estudantil era ativo, participávamos das decisões, da vida da escola.
Éramos felizes! Ríamos muito com as brincadeiras e piadas dos colegas, ( havia sempre um engraçadinho na turma). Bons tempos!


Concluída a quarta série ginasial,  finalmente chegávamos ao Curso Colegial ou Normal. Precisávamos optar entre: Científico (para áreas de ciências exatas), Clássico(para Línguas) e Normal ( o que escolhi, para ser professor).
A escola nos formava para a vida, saiamos dela cidadãos conscientes ! Amávamos nossa Pátria!
           


Identidades foram formadas, teceram-se histórias, marcas foram deixadas pelo Tempo, lembranças, muitas coisas esquecidas, fotografias amareladas, velhos troféus abandonados nos velhos porões, livros mofados,...
Ao longo dos anos fomos perdendo a memória dessas instituições e quem sabe de nós mesmos.
CEEN Arnolfo Azevedo-Lorena-SP- sala de desenho -
Turma  3° ano Normal- 1966
 Quando me lembro daquele tempo e comparo com a escola pública dos dias atuais,  não posso deixar de pensar com tristeza  que alguns jovens da época, que tanto protestavam e se revoltavam contra o governo, hoje estão no poder. O que fizeram eles da nossa escola?
O que fizeram dos ensinamentos que receberam, dos ideais de liberdade e amor pela democracia que apregoavam ?
O que fizeram eles com os sonhos da nossa juventude?





"Se és incapaz de sonhar, nasceste velho; se o teu sonho te impede de agir, segundo a realidade, nasceste inútil; se porém, sabes transformar sonhos em realidade e trocar as realidades  com a luz dos teus sonhos, então serás grande na tua Pátria e a tua Pátria será grande em ti."

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Uma nova chance

A vida da gente às vezes parece um filme, do qual somos meros expectadores.
Nossa percepção é pragmática, não nos permite perceber a realidade além daquilo que tenha para nós interesse imediato.
                                                                                                                                                                 E vamos vivendo levados por nossas emoções, até que um dia nos vemos numa situação de risco:  um grande perigo,  uma doença grave,  um acidente... uma situação de quase morte...



Inevitavelmente temos que parar.
Percebemos então  a insignificancia de nossa condição humana, frente às forças da Vida e da Morte.


Neste momento todos os nossos conceitos são revistos: ambições, orgulho, altivez, poder... nada mais importa, além do dom precioso da Vida.



                                                                                                                                                                  "Quão longa é a noite da Eternidade comparada com o curto sonho da Vida."
                                                        Arthur Schopenhauer


 Numa situação de quase morte, uma força descomunal parece arrastar-nos para um abismo infinito, o corpo exausto sente a necessidade de se entregar ao descanso, mas uma força ainda maior nos traz à consciência e uma voz nos diz que ainda há uma missão a ser cumprida, que ainda não é hora de partir. Lutamos desesperadamente para sobreviver e voltamos á Vida.  Estamos recebendo a graça de uma nova chance de mudar nossos caminhos.

Depois, presos a um leito,vem a sensação de impotência, de esgotamento, sentimos que somos como barquinhos de papel em rios caudalosos, grãos de areia perdidos no deserto, simples joguetes da Vida no Tempo e no Espaço.
Esta sensação de debilidade pode levar à depressão e é quando vamos buscar num Ser Superior a força para vencer mais uma vez.
Podemos, em seguida, sentir a euforia de haver vencido a morte.  A vida  tem um novo sentido, uma nova dimensão.  Passamos a dar valor às pequenas coisas que não percebíamos antes, como por exemplo poder segurar um talher, tomar banho sozinhos, caminhar sem precisar de amparo, pentear os cabelos...
É necessário que estes momentos não sejam esquecidos, eles são os sinais que nos mostram o caminho à seguir.
A vida  para todos nós é como uma folha de papel em branco, com um único ponto negro no centro.
Somos levados por nossa percepção a nos ocuparmos com aquele pequeno ponto. Esquecemos, no entanto, de prestar atenção à brancura da folha.
                                                  
Quantos momentos felizes perdemos por deixar passar a beleza das coisas simples, como o sorriso de alguém que passa por nós na rua, o canto da passarada no final de tarde, o abraço de um amigo, a saudade que a gente mata de alguém distante recebendo um e-mail,  sentir o cheiro doce do capim cortado para os animais, ver as seriemas no quintal buscando o alimento que falta no campo por causa da seca, o jardim florido em pleno inverno, as árvores despidas de sua ramagem,  o gado chegando ao curral pela manhã bem cedinho, a neblina vestindo a paisagem, as gotinhas de orvalho molhando o gramado, o café com leite recém ordenhado, o queijo fresco, o requeijão,...

Escreva, em sua folha em branco, a linda história de uma vida cheinha de Felicidade.

                    


Aproveite a chance, aproveite o dom supremo  que é a Vida.
Viva como vivem as crianças: com alegria, com simplicidade, com Amor e Esperança! 





"Gozar o presente é fazer disso o propósito da Vida,, é a maior sabedoria, visto que somente o presente é real, todo o mais é representação do pensamento."  
                                                                                                                     Arthur Schopenhauer

sábado, 27 de agosto de 2011

INSÔNIA

"Uma inquietude, que não me é peculiar, tira-me o sono. Talvez o dia cheio de preocupações seja a causa,.. ou... talvez porque a dimensão do meu sonho não caiba em minha realidade... O fato é que me reviro na cama, sem saber como acomodar braços e pernas, parece-me sentir separarem-se alma e corpo, insatisfeitos, cansados!
Busco na escuridão um rosto... imagens do passado! ...Uma grande irritação me consome... uma angústia... Quero apenas dormir, mas me levanto e escrevo..."


Quem ainda não passou noites acordado, rolando na cama, até rezando para conseguir dormir?
Quem não sentiu o efeito dessas noites no dia seguinte, tendo que cumprir com seus compromissos?
Insónia é um mal que acomete uma infinidade de pessoas nos dias atuais e precisa ser tratada. O estresse da vida moderna, o excesso de atividades, a perda de um ente querido, algumas doenças como diabetes, hipertensão, obesidade, apneia  do sono, síndrome das pernas inquietas, tosse noturna, depressão, e uma infinidade de outros fatores, fatalmente causam a insónia.


O que fazer?
Durante muitos anos sofri de insónia, foi necessário procurar um médico. Encontrei, para minha sorte, uma profissional séria, que além do tratamento com medicamentos, ensinou-me algumas dicas para dormir bem. Espero que possam também ajudá-los. São muito simples:
- evite atividades intensas três a quatro horas antes de dormir;
- se não conseguir dormir nos primeiros trinta minutos, levante-se. leia, escreva, assista TV, ouça música suave...
- só volte para a cama quando sentir sonolência, deite-se e procure relaxar. Aprendi, com minha professora de Yoga, uma técnica que consiste em tentar desfazer todos os pensamentos ruins, procurando pensar
unicamente num ponto imaginário, situado entre as sobrancelhas, tente esvaziar  a mente (dá certo);
- pode parecer crendice, mas um copo de leite quentinho, também ajuda. O leite contém substâncias que acalmam, mas o mais importante é a sensação de aconchego que trás a caneca quentinha entre as mãos, fazendo lembrar a infância , o lar,  um tempo feliz;
- programe um horário para acordar pela manhã, todos os dias e deixe que bastante luz penetre em seus olhos ao abri-los, isto vai ajudar a ajustar seu relógio biológico;
- lembre-se que nem todos precisam de oito horas de sono, há um provérbio que diz, mais ou menos assim:

''O homem sábio  divide seu tempo em: seis horas para Deus, seis horas para o trabalho, seis horas para o lazer e seis horas para descansar." 




terça-feira, 23 de agosto de 2011

Gostinho de Infância

Ah! A casa da vovó Julieta!
Casa simples, em Olinda, Distrito de Nilópolis, onde nasci e passei bons momentos da minha infância.
Era de "fundos", havia um portão na entrada, ao lado dele um banco de madeira, onde à tarde nos sentávamos para "ver o movimento da avenida".  Lembro-me bem das procissões nos dias santos e dos dias de Carnaval, quando passavam os blocos "de sujos", (  mascarados, homens vestidos de mulher, diabinhos, morcegos, etc),        Eu morria de medo dos diabinhos e dos morcegos! Naquele tempo, a Beija-Flor de Nilópolis era apenas um bloco carnavalesco, mas já nos encantava.


                     




Para chegar à casa tínhamos de passar por um corredor, ladeado por uma cerca e um muro alto. Eu tinha um pavor enorme de passar ali à noite, no escuro, parecia-me interminável, cheio de fantasmas. Ia correndo, cantando alto para espantar o medo, era como se houvesse algo atrás de mim, a me empurrar para frente. Pior era quando a vovó nos fazia varre-lo. Nunca mais acabava aquela varreção.
                               

Vovó Julieta tinha um jardim lindo, com flores que hoje em dia quase não são vistas: jasmins, maravilhas, saudades, cristas de galo, bouquet de noiva , rosas Terezinha, Jacintos, uma florzinha azul da qual não lembro o nome (era a que eu mais gostava),  mas ela  trazia o  jardim sempre vigiado, porque nós adorávamos colher suas flores para brincar ( hoje meus netos colhem minhas flores, mas eu não me zango com eles porque me lembro que também fui criança)  Ela também tinha o hábito de colocar, ali entre as plantas, docinhos para Cosme e Damião... e nós esperávamos que ela entrasse e ...Ah! Que docinhos deliciosos! Mas não comíamos tudo, não! Deixávamos alguns para os santinhos.

Uma delícia também eram: o picolé de groselha que íamos chupando até ficar só o gelinho no palito,  a bisnaga fresquinha com manteiga no café da tarde (que eu ia buscar lá da padaria do seu Aníbal), o pirolito  em forma de chupetinha,  o quebra-queixo,  a cocada de fitas, o amendoim torradinho, as compotas da vovó, a broa de milho... Hummm! Quando a gente é criança tudo é mais gostoso, tudo tem um sabor diferente, tem gostinho de infância!

Havia um toquinho de madeira segurando a porta da cozinha,  nele o Licininho (primo) sentava-se para comer os docinhos da vovó. Ela lhe perguntava, quando ele acabava: -" Chegou, Licininho?" Ao que ele respondia: - "Cheguei".  Ela  chorava de tanto rir, aliás vovó ria-se de tudo, mas zangava-se também com nossas  artes. Vovó era uma criança!


Eu e o Licininho nos dávamos muito bem, nunca brigávamos, estávamos sempre juntos nas traquinagens, mas tia Nita não dava muita folga para ele, era o caçula e ela estava sempre com medo que se machucasse ou pegasse  um resfriado. Amava muito também meu primo Élcio, era mais velho que nós, mas brincava conosco e era muito alegre e divertido, Nós o perdemos muito cedo. Só pode ter ido para o Céu!

Gostava de ouvir as novelas  da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, mas elas começavam às seis horas da tarde, hora da Ave Maria, com Júlio Lousada, que  vovó não perdia por nada deste mundo.  Então eu ia para a casa do tio António e da tia Amélia, sentava-me quietinha e ficava ouvindo junto com os dois velhinhos as aventuras do Anjo e Jerônimo o Herói do Sertão.
Eu devia ter nessa época uns seis ou sete anos.
Tia Amélia era uma figura.  Era alta,  meio gordinha, muito mansa, simpática, dava-me um copo de suco, às vezes uma carambola, bolachas...
Tio Antônio era inteligente, acho que era professor aposentado, conversava comigo como se eu fosse um adulto, e eu ficava orgulhosa com isso.
Eu gostava muito daqueles dois!


Fui crescendo, tornei-me adolescente... lembro-me de uma vez  em que fiquei  com a vovó, sem meus pais, só naqueles dias é que descobri o quanto ela era linda, sensível, carinhosa, longe da imagem de velhinha rabugenta que ficou da infância, quando ficava brava com as nossas traquinagens.
Foi em Olinda  também que reencontrei meu companheirinho de infância, que se tornou o meu primeiro namorado...O meu primeiro amor...!
A vida, no entanto,  separou nossos caminhos!
Quando somos muito jovens não sabemos reconhecer o amor... não reconhecemos um sentimento verdadeiro... "Eu era muito jovem para saber amar"



Não voltei mais à casa da vovó depois que ela se foi!
A nossa Olinda é hoje uma  doce lembrança em minha memória. Um dia ainda voltarei!

domingo, 21 de agosto de 2011

MUNDO MÁGICO

Às vezes, ao escrever meus artigos, tenho receio de parecer piegas, "careta", etc, mas nestes dias em que ninguém tem tempo para nada, em que o corre-corre da vida moderna nos  absorve, desorienta e aliena, que palavras escolher para satisfazer a quase compulsão que tenho de escrever?
                   

           Ainda que pareça tola

           quero rir à toa.
           Rir dos meus "tropeço".
           dos meus recomeços...
                            Sid

Eu então lhes falo de Felicidade, de Alegrias, de Amor...Quando a gente ama corre o risco de parecer um pouco ridículo. Quem ainda não se sentiu assim? 
Quero me refugiar nestas páginas, neste mundo mágico onde reencontro a minha alma de criança. (Só as crianças são realmente felizes, elas sabem o que querem)


Escrever preenche lacunas dentro de mim. Busco palavras que deixem brotar do meu íntimo o imenso carinho que preciso transmitir. É tão difícil, parece que tudo já foi dito, que a imensidão do mundo das letras está totalmente explorada!  Que posso dizer com meu simples vocabulário, acostumada  que estou a falar às crianças pequenas? Apenas começo a engatinhar neste mundo encantado, mas quem sabe alguém, ao ler estas páginas, encontre nelas também o seu refúgio?




     

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

AMAR SEM ILUSÕES

 Costumamos dizer em nossa cultura, que as pessoas quando se apaixonam "ficam cegas", isto porque
buscamos na pessoa amada a projeção da nossa alma, ela representa um ser perfeito, quase divino, e empreendemos grandes esforços para que esta imagem de perfeição não  se desvaneça. Percebemos, às vezes até por instinto, suas falhas, mas tentamos atenuá-las, desculpá-las e acreditamos, em nosso intimo, que o amor que sentimos será capaz de transformá-la. Quanto engano!


Depositamos neste Semi-Deus todas as expectativas, esperanças e sonhos, esperando dele o que realmente ele não pode, ou até não pretende nos oferecer. Este é o erro mais comum entre os apaixonados. Colocamos nossa  felicidade nas mãos de outra pessoa, mas a felicidade está dentro de cada um de nós, em nossa capacidade de amar e respeitar, principalmente a nossa individualidade. Cegos pela paixão deixamos de vivenciar todas as nossas potencialidades e forças, deixamos de buscar e realizar todos os sonhos e ideais de vida, e quando as ilusões se desvanecem, culpamos o outro por nossas frustrações.


"Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma rosa comum que eu possuo... isso não faz de mim um príncipe muito grande..." E deitado na relva ele chorou.
                                                             Antoine de Saint-Exupéry em O  Pequeno Príncipe

Não nos ocorre que podemos e devemos nos amar como pessoas comuns, seres humanos mortais e imperfeitos, que se permitam deixar que essas imagens de perfeição se desvaneçam. Isso torna um relacionamento duradouro, entre seres que se amam sem esperar coisas impossíveis do outro. Pessoas que se amam sem ilusões!


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