terça-feira, 29 de novembro de 2011

A Preservação Ambiental e o Meio Rural

  Lendo a revista Balde Branco, do mês de Setembro deste ano, chamou-me a atenção  um artigo do professor Vidal Pedroso de Faria, da Esalq- Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz- USP, e membro do conselho editorial da revista : Mais Uma Ameaça ao Meio Rural.
Relata os problemas vividos pelos produtores rurais, devidos às medidas severas e a legislação rigorosa da Preservação Ambiental.



Há até um dito que está se tornando popular, entre nós: " é preferível  caçar o fiscal, que enfrentar os rigores da lei para quem tenta capturar ou matar algum bicho."
Ouvi contar uma estória sobre um certo fiscal, que se dirigiu a uma propriedade para realizar uma inspeção. O fazendeiro disse que poderia fornecer-lhe os dados do rebanho, mas o homem não aceitou, queria ele mesmo verificar:
- Eu sou fiscal, olhe o meu crachá!
tatu
E lá se foi ele pastagem a fora, quando de repente um boi "brabo" se lançou em sua perseguição.  Desesperado começou a gritar por socorro. O fazendeiro calmamente lhe respondeu:
- Mostra o crachá "p'rele"
Esta foi só para descontrair.

Contam que um sertanejo, caçou um tatu para consumo da família, prática milenar em sua cultura. Foi denunciado e preso. O infeliz não conseguia entender o que estava acontecendo, porque desde menino costumava acompanhar seu avô e seu pai  nessas  caçadas noturnas.

As leis que protegem a flora são igualmente rigorosas. Outra triste história é a de um idoso, que para fazer um chá para a esposa doente, retirou cascas de um ipê e também foi preso, sem ter idéia do que estava acontecendo.

São inúmeros os casos, como estes, que acontecem neste nosso Brasil sertanejo.  As leis  entram em vigor, sem que o homem seja conscientizado e orientado  para cumprí-las.


ipê roxo




O rigor no cumprimento  das leis ambientais tem dado resultados a olhos vistos.
Ficamos encantados ao ver os animais silvestres soltos pela natureza, é uma visão de sonhos.


sanhaço-de-fogo
                                                                                         
beija-flor



O canto dos passarinhos, o voo coordenado e leve das garças e das araras, a beleza dos tucanos, a algazarra dos macaquinhos, as seriemas em nossos quintais...sem sombra de dúvidas a preservação possibilitou o resgate da vida de inúmeras espécies que estavam em extinção.
                                                                                                       

                                                                                                                                                                                                             

tucano
                                                                                                                  
garça branca
O aumento da população de animais selvagens, no entanto, não se deve apenas as leis ambientais rigorosas.
A quebra da cadeia alimentar, entre os seres da natureza, também  contribuiu.  Muitas espécies não têm  mais seus predadores naturais, e vão se reproduzindo de forma desordenada. Os animais carnívoros, que exerciam o importante papel de controle da população desses animais, foram empurrados para o interior, pela urbanização, mas estes grandes felinos estão retornando,  há muitos relatos de  seu aparecimento próximo às cidades..
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onça pintada




A natureza também exerce importante papel  na manutenção do equilíbrio ecológico, as secas prolongadas - como está acontecendo neste ano - causam impacto sobre a população de animais herbívoros, que com a diminuição do seu alimento, sofrem o aumento da mortalidade e problemas reprodutivos.
Estes  animais então invadem as propriedades rurais, causando prejuizos às lavouras.
É muito comum acontecerem destruições em campos cultivados com cana-de -açúcar,  milho, produção de alimentos volumosos, e sistema de pastejo rotacionado,  por bandos de javalis, porcos do mato e capivaras.
Porém a destruição dos campos não é o único problema em virtude da super população  desses animais, acontecem grandes acidentes nas estradas,  há infestação de carrapatos  por intermédio das capivaras, levando desconforto, e morte, pela disseminação da febre maculosa.


Em visita à
Ilha Anchieta, em Ubatuba - patrimônio tombado pela natureza- pude constatar que  algumas capivaras introduzidas ali, não havendo predadores no local,  em pouco tempo reproduziram-se de forma descontrolada  e  estavam causando sérios problemas ao reflorestamento. As mudas de espécies nativas, recém plantadas, estavam sendo devoradas pelos  roliços animaizinhos.

capivaras
                                           


Em países mais organizados e onde esse controle existe há mais tempo, também acontecem estes problemas, no entanto, o produtor está amparado por fundos específicos que são instituídos para cobrir seus prejuizos Existem também programas de controle populacional através da caça de desbaste, sob fiscalização, naturalmente.

Conclui-se que no Brasil as leis ambientais implantadas devem ser revisadas, porque a atividade agrícola, a saúde humana e dos animais selvagens, necessitam tratamentos específicos.

domingo, 13 de novembro de 2011

O SENTIDO DA VIDA



As definições de Vida são inúmeras, complexas, científicas, filosóficas...
São definições utilizadas por  biólogos, bioquímicos, metafísico, filósofos, astrônomos, astrofísicos...
Mas o que é realmente a Vida, de onde viemos?
Para onde iremos?
O que realmente importa,  neste mundo do qual quase nada conhecemos, cuja origem apesar de tantas pesquisas e estudos, ainda é uma incógnita para o ser humano?  Qual o verdadeiro sentido da vida? Como nos devemos relacionar com o mundo que habitamos?
Qual a dimensão da palavra Vida?
Estas perguntas ecoam pelo espaço sem encontrar  respostas plausíveis, porque elas só podem ser encontradas dentro de cada um de nós. O Homem
somente poderá desvendar os segredos do Universo,conhecendo a si mesmo.                

    " O que torna belo um deserto, é que ele esconde um poço nalgum lugar."                                                                             Antoine de Saint- Exupéry                                         

Para Platão o objetivo maior do ser humano seria encontrar a Felicidade, e ela estaria  no equilíbrio entre a razão, a coragem e os instintos;

seu aluno Aristóteles, acreditava que Felicidade estaria  na contemplação da vida - apenas os filósofos a poderiam atingir;


Platão


                 
Aristóteles
Epicuro
                                                                                 
 
para Epicuro, era a superação do medo e da dor;


para Cristo, a comunhão eterna com Deus seria o único caminho para encontrar a verdadeira Felicidade.
                                        
         
             

O  conceito  de vida que pretendo abordar, é o que diz respeito à vida da gente, à vida que temos no nosso dia a dia, este curto período entre nascer e morrer, o curto sonho do qual um dia teremos que despertar.
O sentido da vida do homem está relacionado  à Felicidade, que é uma busca infinita,  porque ele está incansavelmente à procura de algo maior.
Acredito no entanto, que a Felicidade esteja dentro de nós, no jeito próprio de cada um  interpretar o mundo.
Dessa leitura do mundo - que é mais importante do que ser alfabetizado - depende se iremos ou não alcançar nosso objetivo.

A vida é algo tão sutil que não percebemos quando acontece, é um momento que não é passado nem pode ser chamado de futuro.  A vida é preciosa, descobrir o sentido da vida é entender os seus sinais, é ter a alma liberta, mesmo com o corpo limitado em seus movimentos.


"Jamais se desespere em meio às sombras e aflições de sua vida, pois das núvens mais negras cai água limpa e fecunda."

Descobrir o sentido da vida também é amar  as crianças, ajudá-las a encontrar seu caminho, orientá-las na procura de seu auto-conhecimento e na formação de seu caráter.
                                  



                                                                                      


Encontrar a beleza até nas rugas profundas, marcadas nos rostos de nossos idosos, ouvir suas histórias e estórias, prestar atenção ao que dizem como se fosse a última vez,  aprender com eles.





Amar os seres da natureza, parar para apreciá-los, 
Colaborar para que sejam preservados em seu ambiente.








Ter consciência de que somos apenas "poeira cósmica", e desta lição que o Universo nos transmite, cultivar a humildade no coração, sem perder a dignidade, nem a coragem




Entender que somente existe o caminho que escolhemos para seguir, depois o que poderia ter sido já não importa.
Mas lembrar que sempre há um tempo para mudar, quando estivermos prontos para esta mudança, ela acontecerá.

Compreender que o Amor deve estar presente em todos os momentos, vivendo cada um deles com urgência, como se não houvesse o amanhã.




"...o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa, ou num pouquinho d'água...mas os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração..."
Antoine de Saint- Exupéry



É através da Comunhão com o Universo, que o Homem poderá atingir  "O verdadeiro sentido da Vida": o conhecimento do Amor e da Justiça.

domingo, 6 de novembro de 2011

Ética e Preservação da Natureza

Existe por trás da questão ambiental, o problema moral:  qual a postura dos seres humanos em relação a Natureza?  Temos obrigações morais para com as gerações futuras?




Ética é a reflexão sobre estas questões. É a reflexão sobre a ação do homem, objetivando atingir um conjunto de ações  ideais ao bem comum, é a responsabilidade de cada indivíduo com tudo que existe e tem vida.
Em relação ao meio ambiente, deve-se levar  em conta o desenvolvimento sustentável, que é a capacidade de promover um desenvolvimento que satisfaça as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras proverem suas  próprias necessidades, não perdendo de vista a garantia de sustentação da Vida na Terra.




Para que este ideal seja concretizado, é necessário que haja equilíbrio entre Economia, Ecologia e Ética.
Este equilíbrio é utópico, porque é impossível utilizar economicamente  os recursos naturais com total preservação ambiental. Sendo assim, é necessário encontrar um equilíbrio entre o consumo - qualidade de vida- e a qualidade ambiental, através de ações éticas.
A Ética ambiental se contrapõe ao materialismo, à competitividade, à inveja, à desigualdade. à dominação de uma classe social, à massificação de informações e a inércia da sociedade. Tudo isto irá gerar a insatisfação dos indivíduos, pelo egoísmo,  apego e desejo, causando a destruição do ambiente e a desintegração da sociedade.




.Ética também implica no reconhecimento do valor da Natureza para a manutenção da vida no Planeta, compreender a importância da flora , da enorme variedade  de vida animal, da vida selvagem, da atmosfera e da água, livres de poluição, para a preservação da vida do ser humano. Reconhecer que a Natureza tem a capacidade de tornar possíveis a sobrevivência física e o desenvolvimento social.
É necessário despertar a consciência ecológica no ser humano, único ser que tem a capacidade de modificar o meio em que vive.
O homem orgulhando-se de suas descobertas, julgando-se superior dentro do Cosmos, acreditando estar acima do Bem e do Mal, acabou perdendo o eixo de si mesmo, e colocando-se à beira do Chaos inicial.



Esqueceu-se das lições acumuladas ao longo do tempo, durante milênios, o discernimento entre o bem e o mal, entre erros e acertos, direitos e deveres. Perdeu a visão da Ética, não sabe como encarar o mundo, nem como se inserir nele, como agir e manter sua dignidade.
.A transitoriedade e as aparências tiraram-lhe a visão do que é essencial.

 A Ética é filha da Terra, assim como nós. Nasceu da integração dos seres vivos inteligentes, entre si e com outros seres vivos e não vivos.
A cobiça dos recursos naturais trouxe discórdia entre os homens, mas o mundo natural,
 se for respeitado, poderá ser o mediador da ordem e do convívio tranquilo no Planeta.


A Educação Ambiental deverá trazer modificações no intelecto, mudanças radicais aos paradigmas éticos,  à  vida dos seres humanos e às nações.
A vida do homem pertence ao Planeta, à biosfera.












"Homem, Natureza, Vida e Cosmos são inseparáveis."    












sábado, 22 de outubro de 2011

Vivendo a preservação do Meio Ambiente

Ontem choveu!
Chuva tranquila, abençoada, que voltou com a Primavera!.
Foram  mais de quatro meses de seca terrível!  Um surpreendente inverno:  com dias de sol abrasador e outros, com   frio intenso!  Jardins floridos e folhas secas...
Estações do ano atípicas.
Dias e noites passam rapidamente...
Nosso Planeta gira mais depressa!
Temos frentes frias, frentes quentes...furacões, tsunamis, vulcões em erupção, grandes deslizamentos de encostas, alagamentos...
Fenômenos que trazem terror e morte aos seres humanos!
Que estará acontecendo com a vida na Terra?
Penso comigo mesma:
"Terá realmente o Homem o poder de desequilibrar uma obra tão perfeita?"


Acredito que haja necessidade de desenvolver a consciência de preservação do meio em que vivemos.
Muitas modificações sofridas pela crosta terrestre, são  devidas à ação do homem, como as modificações efetuadas  no relevo e a degradação ambiental.




Mas a Natureza é algo cuja força não podemos controlar, nem evitar.
Ela é incomensuravelmente superior e  mais forte  que nós, minúsculos seres, entre os incontáveis seres que habitam  este planeta.
Grandes transformações ocorrem em razão da própria estrutura,  da orientação do eixo de rotação e dos movimentos da Terra.
























Trabalhei muitos anos com Educação Ambiental.
Criei e desenvolvi projetos  junto a meus alunos e comunidades de que participei.
Empenhei-me com entusiasmo na implantação do Núcleo Regional de Educação Ambiental do Litoral Norte.


                                             

Desenvolvi os projetos: Tom da Mata, SOS Mata Atlântica ,  A Natureza da Paisagem- Energia, projetos de Reciclagem do Lixo nas Escolas, Lixo no Mar, Muda o Mundo Raimundo e tantos outros.
Plantei hortas e jardins com meus pequenos!                  
                                                                                
Indignei-me com a ocupação e devastação das matas, com a matança de animais, com a poluição do ar, dos rios e mares...Contudo, tão importante como  preservar o Meio Ambiente, é  proporcionar ao Homem condições de sustentabilidade  em seu meio,  respeitar as comunidades tradicionais e as culturas locais, auxiliá-las a resolver seus problemas concretos e cotidianos através de atos governamentais transparentes.
Mas  verdadeiras atrocidades são cometidas em comunidades  isoladas e carentes, em nome das Leis Ambientais, que foram implantadas sem um planejamento adequado, que preservasse o direito à Propriedade e à Educação!


                                                                                                                                

Hoje meu objetivo   consiste em preservar  também o meu pedacinho de chão.                      
Da varanda observo tudo a minha volta!
Os campos ainda  não mostram o seu verde natural,  as pastagens  necessitam de muita chuva para se recuperar, mas o  gado  descansa  à sombra das mangueiras,  remoendo tranquilo,  indiferente ao tempo.
Os pássaros vêm buscar seu alimento  em meu quintal, nos pessegueiros carregados, nas amoreiras, nos mamoeiros, nas pitangueiras...
As seriemas que cantavam nos campos,  se aproximam meio temerosas  para recolher os grãos que lhes ofereço...



Há na propriedade um pequeno córrego que apesar da estiagem prolongada este ano não secou, porque protegemos sua nascente.
                                                                                                               
         
 A grande árvore, na frente da casa -   uma Sapucaia  quase centenária -  que deveria ter sido derrubada quando fizemos a reforma da sede, mas eu não permiti, cobre-se de folhas rosadas e de flores que caem como se fossem flocos de neve e deixam no gramado um lindo tapete branco.
Os sininhos-  mensageiros do vento- se agitam, produzindo um som melodioso que se junta ao canto dos canarinhos da terra, dos sabiás, dos bentevís, dos viras, dos sanhaços...que se abrigam nos galhos floridos das árvores que plantei antes de partir.


Muito tempo fiquei longe daqui.
Parti  em busca dos meus ideais, dos meus sonhos, de realizações.
Foi uma realização pessoal poder ajudar na formação do caráter de inúmeras crianças, transmitir a elas além do conhecimento, valores, atitudes de solidariedade, de cooperação, de justiça, de respeito a si mesmo e ao próximo, plantar em seus corações a semente do  amor á Terra, aos animais e às plantas.                                 


Agora voltei para ficar, retomar o meu "lugar de mato verde",  replantar meu jardim que ficou sem mim tanto tempo!
Voltei  para viver novamente no meu pequeno vale florido,  pensar  que este mundo ameaçador está muito longe daqui!



 Todos nós somos responsáveis pela qualidade de vida , pela relação equilibrada do ser humano com seu ambiente.
Quem sabe que se cada um de nós  fizer o seu  "dever de casa", possamos evitar a destruição da Vida no nosso lindo Planeta Azul?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Aventuras na Serra do Mar

Durante mais de dez anos, morei  em Ubatuba, no Litoral Norte de SP  e como toda minha família havia ficado no interior, quase todo final de semana viajava para visitá-la.
Preferia utilizar a Rodovia Oswaldo Cruz.   Percorria  com muita tranquilidade e prazer aquele caminho maravilhoso, apesar do enorme perigo representado pelo seu péssimo estado de conservação naquela época,  pelas curvas - verdadeiros cotovelos- e pelos abismos imensos.
Conheço cada palmo daquela rodovia, posso assim dizer, por causa das incontáveis viagens e situações complicadas que ali vivenciei.

        

A estrada está  implantada no seio da Mata Atlântica, Área de Preservação Ambiental  - APA - região da Serra do Mar, onde predominam imensos manacás -da-serra que ao florescerem, enchem nossos olhos de tonalidades e matizes, em  verde, branco,  rosa e lilás. Não é raro vermos passar à frente de nosso veículo um animalzinho apressado. Ouve-se o canto dos pássaros apesar do ruído do motor.  O perfume e frescor do ar, dão leveza à alma da gente!





A neblina e a chuva são  constantes,  provocadas  pela grande evaporação da Mata e pela proximidade do mar, por isso Ubatuba é conhecida como Ubachuva
Muitos momentos difíceis passei ali por causa desses fenomenos, mas mesmo assim eu amo aquela serra!

Como queria aproveitar a companhia de meus pais e meus filhos, acabava pegando a estrada à tarde e  quando chegava à serra estava anoitecendo.
Numa dessas viagens, atrasei-me e  encontrei uma neblina muito densa, mais que o habitual. Diminui a velocidade e fui tentando me orientar.   Estava visivelmente desnorteada quando um carro branco me ultrapassou,  entrou à minha frente, ligou o pisca-alerta e foi me guiando enquanto durou a neblina.  Já no final  da serra, deu-me passagem.
Surpresa, fiz um gesto de agradecimento e segui, também agradecendo a Deus pela providencial ajuda.
Quem seria aquele motorista?
Um viajante solidário que percebera a minha insegurança ou um Anjo que veio em meu socorro?
Nunca pude saber! O fato é que não o vi mais na estrada. Desapareceu!



Numa outra vez, também  na volta para Ubatuba,  aconteceu algo bem semelhante.
Chovia muito e a neblina intensa como sempre, foi me deixando apreensiva, amedrontada. Já não enxergava mais nada! Comecei a rezar!
Sem possibilidade de  estacionar,  porque não havia acostamento, e  também porque a estrada deserta me apavorava, continuei a viagem  às cegas.  O belo caminho transformara-se  num cenário de filme de horror!
A criança  adormecida dentro de mim despertou!
Via  em lugar dos maravilhosos manacas  vultos fantasmagóricos, com seus braços descarnados estendidos em minha direção, temia que algum animal selvagem invadisse a pista, ou almas penadas surgissem a qualquer momento para me assombrar. Foram tantos os pensamentos terríveis!  Chamava  angustiada meus Anjos e todos os meus santos!...
Estava completamente perdida no meio daquele nevoeiro... de repente, senti que o carro derrapava na pista molhada e que a traseira se chocava  com alguma coisa. Horrorizada, pensei que iria cair  num daqueles abismos, mas por sorte, havia batido num barranco.
Neste mesmo instante passava um automóvel, lembrei-me do que acontecera na outra vez e  instintivamente decidi segui-lo.
Sentia que o  carro estava pesado.  Atribui a isso a batida no barranco e continuei acompanhando com dificuldade o outro motorista até que ele desapareceu na escuridão.
Desta vez não era um anjo!
Decepcionada,  não tinha alternativa, precisava seguir, só não sabia onde iria parar.


Não sei por quanto tempo durou aquela angústia!
Nada mais me parecia real, tentava me manter atenta a qualquer eventualidade.  Esperava que de um momento para outro pudesse acontecer algo pior.
Minha cabeça doía, meu corpo tremia de frio e de aflição!


Foi então que um pensamento terrível me ocorreu:  talvez na batida eu tivesse morrido e minha alma ainda estivesse vagando, perdida naquele lugar deserto. Quase entrei em pânico!
Aquela agonia prolongou-se ainda por muito tempo! Os fantasmas teimavam em povoar minha imaginação! Estava à beira de uma crise de nervos!
Prometia a mim mesma que nunca mais me envolveria em tal  situação se conseguisse escapar.
E o tempo continuava passando lentamente! Parecia-me uma eternidade!
Estava no auge do meu desespero quando vi uma placa à beira da estrada,  envolta na neblina:

  Percebi neste momento que ao bater, o carro dera meia volta e ao invés de descer a serra, eu havia subido!! Estava chegando à São Luís do Paraitinga!!!!

O pior é que teria que percorrer o caminho todo de novo, isto é, enfrentar a neblina novamente por vários quilometros!
Bem, pelo menos eu estava viva, não era uma alma penada. Feliz, enchi-me de coragem e retomei o meu caminho!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A Escola de Antigamente

Grupo Escolar Antônio João, em Piquete-Sp.Turma do 1° ano em 1957
Postada por Ilce Nunes e fotografada por D Mariinha
                           
Foi no Grupo Escolar Gabriel Prestes em Lorena, no estado de São Paulo que pela primeira vez entrei numa sala de aula.
Já havia sido alfabetizada por meu pai porque morávamos no Estado do Rio de Janeiro onde, além de morar distante, era difícil conseguir vagas na escola.  Preocupado em ver que eu crescia sem saber ler e escrever, ele me ensinou o que sabia.
Tinha nove anos quando entrei na primeira série do curso primário. Graças ao meu querido pai, ao carinho e à competência de minhas professoras, à minha vontade enorme de aprender,  não tive dificuldade alguma em meus estudos.

Tudo era novo para mim, a disciplina, a organização da escola, , o material de ensino, tantas crianças juntas...
 Estranhei um pouco as carteiras duplas  que, se nos mexêssemos muito, balançávamos a mesa do colega de trás e o da frente balançava a nossa. O tinteiro com tinta Nanquim ou Parker era embutido na mesa.
Havia  lugar também para a goma arábica, para lápis e borracha.  Em baixo dela havia espaço para colocar os cadernos e livros.
Toda sala possuía um apontador de lápis coletivo e tínhamos o alongador que permitia usar o lápis até estar um toquinho ( que tal essa dica ecológica nos dias atuais?)

pena de escrever




Parker 51 -  caneta tinteiro dos anos 60
               No início, no primeiro ano, usávamos lápis Johann  Faber para escrever, ainda era usada também a caneta de madeira com ponta metálica, a pena de escrever, que não podia cair, sob hipótese alguma, porque a frágil ponta metálica se partia ( lembro-me de lindos desenhos que eram feitos a bico de pena, com tinta Nanquim).



homem vitruviano imaginado por Leonardo Da Vinci -exemplo de desenho feito à bico de pena


Depois foi criada a caneta tinteiro.
Quanta tinta derramada!
Foi uma grande alegria quando ganhei a minha primeira Parquer 51, era um luxo!
Sendo canhota, escrevia passando a mão por cima da escrita e muitas vezes borrava a folha do caderno porque a tinta demorava a secar.  Eu precisava fazer ginástica para escrever.




 Para  enxugar o excesso de tinta usávamos  mata-borrão.
                                                                   


Os cadernos eram  de brochuras,  grampeados no centro.
Se arrancássemos uma folha, a  outra despencava e, por mais cuidado que  tivéssemos, ficavam cheios de "orelhas".
O caderno de caligrafia deixou minha letra redondinha que dava até gosto!
 Foi a d. Ester, professora do  terceiro ano, que me aconselhou,  a copiar nele, durante as férias, a última e enorme lição do livro de leitura.

Tínhamos também um caderno de Linguagem, um de desenho, um de ocupação e um só para provas. Todos eram encapados, etiquetados e guardados em armários nas salas de aula. Somente levávamos para casa o caderno de tarefas diárias.
O livrinho de tabuadas (continhas de vezes) era decorado "na ponta da língua", a régua era de madeira,
as folhas de papel ao maço pautadas, também guardadas no armário, eram usadas nos exames do meio do ano e finais. Tínhamos uma espécie de mala ou pasta para transportar o material de casa,  que deveríamos cuidar muito bem para que durasse os quatro anos.


A alfabetização era iniciada com  a "Cartilha Sodré: " de Benedita S. Sodré 

"A pata nada.  
A macaca é má. 
Pata pa      nada na    
macaca ma
Inesquecível!                                                                                 
                                                                                                                                                                                                                           

O primeiro livro foi o "Caminho Suave" de Branca Alves de Lima.
Hoje muitos criticam os métodos de alfabetização utilizados na época, mas a verdade é que os alunos ao final do curso liam e escreviam corretamente. Um exemplo disso foi meu pai, que me alfabetizou, tendo cursado apenas até o segundo ano primário. Quantos alunos atualmente chegam à sétima e oitava séries do ensino Fundamental sem saber ler!
    
                                
                                                       
Eu era muito alta, além disso era dois anos mais velha que as outras crianças. Ficava profundamente envergonhada quando fazíamos fila para entrar ou sair da classe,  era quase o dobro da altura de meus colegas, e  me curvava para parecer menor, queria que um buraco se abrisse para poder me esconder!
No recreio via as crianças brincando de roda, de pega-pega, chicotinho queimado,... e me achava sem jeito para brincar com elas, mas aos poucos fui me adaptando. Sentia que apesar de toda a minha timidez  aos poucos elas iam se aproximando de mim.
Havia respeito, amizade, entre os pequenos da época.
A facilidade que eu tinha em aprender foi conquistando minhas professoras,  até as ajudava a corrigir cadernos.
A escola se tornou o meu segundo lar.
A nossa infância na escola era imensamente feliz!


Tenho saudades:
das minhas professoras, D. Ester de Almeida, D. Mirthes, D. Heloísa E. de Castro Andrade,
gostaria muito de ter sido aluna de D. Elsa Del Mônaco e  de D. Doli de Castro Galvão, porque elas organizavam o orfeon da escola, que era a minha paixão.
Todas eram profissionais competentes, dedicadas, exigentes quanto à aprendizagem, rígidas quanto à disciplina, tinham controle  absoluto sobre seus mais de quarenta alunos em sala de aula.
Saudades também dos diretores que amávamos: D. Ângela e Prof . Frederico Húmeo,
da D. Aparecida Pereira, nossa inspetora,
do seu  Porto que tocava o sino da entrada e saída dos alunos...\
Passaram-se rapidamente aqueles quatro anos.


Tínhamos em seguida,  sendo aprovados, que passar pelo exame de Admissão ao Ginásio,eram provas escritas e orais, dificílimas, uma espécie de "vestibulinho". Alguns alunos faziam um período preparatório de um ano, mas este não era obrigatório.


                                              
           

Vencida mais esta etapa, seguíamos para a primeira série ginasial, onde nos esperavam treze matérias, aulas também aos sábados, com provas semanais          ( sabatinas)e mensais, exames parciais ( meio do ano) e finais, orais e escritos. As matérias eram todas com notas atribuídas de 0 a 100 e eram: Matemática, Português, Francês, Inglês, Latim, História do Brasil e Geral, Geografia, Ciências Físicas e Biológicas, Canto Orfeônico, Economia Doméstica ( trabalhos manuais, culinária, primeiros socorros, etc), Desenho Geométrico ( cada aluno tinha a sua prancheta), Educação Física, Religião, Educação Moral e Cívica. Dureza!
                         

Alunos de todas as classes sociais frequentavam a escola pública em harmonia, como numa perfeita democracia. Um diploma adquirido nessas escolas valia tanto quanto o das escolas particulares.
A disciplina no ginásio era rígida.
Na entrada precisávamos apresentar a caderneta escolar que era recolhida e carimbada diariamente,  somente retirada no final das aulas (matar aulas, nem pensar). Se bem que um ou outro aluno dava seu jeitinho de escapar, mas não conseguia safar-se da ocorrência registrada na caderneta.
Vários inspetores de alunos nos mantinham sob vigilância constante, mas eram gentis conosco:  dona Natívidade, a Sílvia, a dona Diva, o "seu" Fausto, "seu" Portugal...O  Diretor, Professor Nelson Pesciotta, dirigia com pulso firme o nosso amado Arnolfo Azevedo!
O uniforme  completo era obrigatório: saia ( calça social ) azul-marinho pregueada, blusa ( camisa ) branca de mangas curtas  com o emblema da escola no bolso:  "AA" (Escola Estadual Arnolfo Azevedo), sapatos pretos ou tênis branco (nos dias de Educação Física), meias brancas .


  Participávamos de jogos, campeonatos internos e inter-municipais,  olimpíadas, desfiles em datas cívicas, (eu estava sempre na guarda de honra das bandeiras e uma vez  fui a Estátua da Liberdade), a nossa fanfarra era  campeã!
Todos os anos apresentávamos um festival com números musicais, teatro, dança,...
Tenho saudade maior ainda do nosso coral, onde eu fazia a primeira voz e solo.
Nosso Grêmio Estudantil era ativo, participávamos das decisões, da vida da escola.
Éramos felizes! Ríamos muito com as brincadeiras e piadas dos colegas, ( havia sempre um engraçadinho na turma). Bons tempos!


Concluída a quarta série ginasial,  finalmente chegávamos ao Curso Colegial ou Normal. Precisávamos optar entre: Científico (para áreas de ciências exatas), Clássico(para Línguas) e Normal ( o que escolhi, para ser professor).
A escola nos formava para a vida, saiamos dela cidadãos conscientes ! Amávamos nossa Pátria!
           


Identidades foram formadas, teceram-se histórias, marcas foram deixadas pelo Tempo, lembranças, muitas coisas esquecidas, fotografias amareladas, velhos troféus abandonados nos velhos porões, livros mofados,...
Ao longo dos anos fomos perdendo a memória dessas instituições e quem sabe de nós mesmos.
CEEN Arnolfo Azevedo-Lorena-SP- sala de desenho -
Turma  3° ano Normal- 1966
 Quando me lembro daquele tempo e comparo com a escola pública dos dias atuais,  não posso deixar de pensar com tristeza  que alguns jovens da época, que tanto protestavam e se revoltavam contra o governo, hoje estão no poder. O que fizeram eles da nossa escola?
O que fizeram dos ensinamentos que receberam, dos ideais de liberdade e amor pela democracia que apregoavam ?
O que fizeram eles com os sonhos da nossa juventude?





"Se és incapaz de sonhar, nasceste velho; se o teu sonho te impede de agir, segundo a realidade, nasceste inútil; se porém, sabes transformar sonhos em realidade e trocar as realidades  com a luz dos teus sonhos, então serás grande na tua Pátria e a tua Pátria será grande em ti."

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Uma nova chance

A vida da gente às vezes parece um filme, do qual somos meros expectadores.
Nossa percepção é pragmática, não nos permite perceber a realidade além daquilo que tenha para nós interesse imediato.
                                                                                                                                                                 E vamos vivendo levados por nossas emoções, até que um dia nos vemos numa situação de risco:  um grande perigo,  uma doença grave,  um acidente... uma situação de quase morte...



Inevitavelmente temos que parar.
Percebemos então  a insignificancia de nossa condição humana, frente às forças da Vida e da Morte.


Neste momento todos os nossos conceitos são revistos: ambições, orgulho, altivez, poder... nada mais importa, além do dom precioso da Vida.



                                                                                                                                                                  "Quão longa é a noite da Eternidade comparada com o curto sonho da Vida."
                                                        Arthur Schopenhauer


 Numa situação de quase morte, uma força descomunal parece arrastar-nos para um abismo infinito, o corpo exausto sente a necessidade de se entregar ao descanso, mas uma força ainda maior nos traz à consciência e uma voz nos diz que ainda há uma missão a ser cumprida, que ainda não é hora de partir. Lutamos desesperadamente para sobreviver e voltamos á Vida.  Estamos recebendo a graça de uma nova chance de mudar nossos caminhos.

Depois, presos a um leito,vem a sensação de impotência, de esgotamento, sentimos que somos como barquinhos de papel em rios caudalosos, grãos de areia perdidos no deserto, simples joguetes da Vida no Tempo e no Espaço.
Esta sensação de debilidade pode levar à depressão e é quando vamos buscar num Ser Superior a força para vencer mais uma vez.
Podemos, em seguida, sentir a euforia de haver vencido a morte.  A vida  tem um novo sentido, uma nova dimensão.  Passamos a dar valor às pequenas coisas que não percebíamos antes, como por exemplo poder segurar um talher, tomar banho sozinhos, caminhar sem precisar de amparo, pentear os cabelos...
É necessário que estes momentos não sejam esquecidos, eles são os sinais que nos mostram o caminho à seguir.
A vida  para todos nós é como uma folha de papel em branco, com um único ponto negro no centro.
Somos levados por nossa percepção a nos ocuparmos com aquele pequeno ponto. Esquecemos, no entanto, de prestar atenção à brancura da folha.
                                                  
Quantos momentos felizes perdemos por deixar passar a beleza das coisas simples, como o sorriso de alguém que passa por nós na rua, o canto da passarada no final de tarde, o abraço de um amigo, a saudade que a gente mata de alguém distante recebendo um e-mail,  sentir o cheiro doce do capim cortado para os animais, ver as seriemas no quintal buscando o alimento que falta no campo por causa da seca, o jardim florido em pleno inverno, as árvores despidas de sua ramagem,  o gado chegando ao curral pela manhã bem cedinho, a neblina vestindo a paisagem, as gotinhas de orvalho molhando o gramado, o café com leite recém ordenhado, o queijo fresco, o requeijão,...

Escreva, em sua folha em branco, a linda história de uma vida cheinha de Felicidade.

                    


Aproveite a chance, aproveite o dom supremo  que é a Vida.
Viva como vivem as crianças: com alegria, com simplicidade, com Amor e Esperança! 





"Gozar o presente é fazer disso o propósito da Vida,, é a maior sabedoria, visto que somente o presente é real, todo o mais é representação do pensamento."  
                                                                                                                     Arthur Schopenhauer

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